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A Fila já Andou


Carlos Moreira

Hoje à tarde fui ao shopping; coisa rara. Tinha que comprar um chip para o iPad e aproveitei para pagar uma conta telefônica na lotérica. O que deveria ser uma comodidade tornou-se, na verdade, um suplício. A fila era enorme, gente se apertando de todos os lados num pequeno corredor por trás das lojas.

Depois de meia hora sem sair do canto, eu já estava “viajando”. Minha cabeça, definitivamente, não se encontrava mais naquele lugar. Ouvia ao fundo um “zumbido”, mas ele não podia me tirar do meu “transe”. Foi aí que senti uma “cutucadela” nas costas. Virei-me e vi uma senhora dizendo: “meu filho, preste atenção! A fila já andou”. De fato, a fila andara e eu não havia me apercebido.

Mas não foi só a fila da lotérica que andou... Em quase 30 anos de caminhada, percebo claramente que uma outra “fila" também andou, aquela que me conduz para dentro de mim mesmo. Hoje, constato com alegria que, enquanto caminhava, desconstruí muita coisa que foi “erguida” erroneamente. A verdade é que pouco sobrou... Às vezes releio textos ou mensagens de alguns anos e não os reconheço. “Minha teologia” mudou significativamente nos últimos anos. Dores, perdas e alguns fracassos me tornaram mais humilde, mais quebrantando, talvez, mais simples.

Lembrei do Roberto Corrêa: “o simples é o contrário do fácil”. É muito comum confundirmos simplicidade com simplismo. Ser simples é ser singular; ser simplório é ser medíocre. Tenho pavor da banalidade, da unanimidade. Meu grande medo na vida sempre foi não me tornar alguém, não chegar nunca a ser eu mesmo, não me encontrar comigo.

É por isso que Jesus me fascina! Ele sabia quem era, conhecia o significado de sua existência, compreendia as implicações de sua vocação, seu propósito, discernia o que tinha de fazer, por onde devia andar, com quem precisava se ajuntar. O estilo de Jesus era singular, inconfundível.

Diferentemente de outros mestres, como Platão, que fundou uma academia, ou Aristóteles, que fundou um liceu, Jesus não fundou coisa alguma. Aliás, foi peça fundamental para afundar tradições, dogmas, ritos e mitos do “sagrado” de Israel.

Jesus era desalojado, era como o Pai, “claustrofóbico”, não podia ser “contido”, “aprisionado”. Ia às sinagogas, mas nunca quis ser membro delas, rejeitou a tentação de ser sacerdote, passou ao largo da possibilidade de tornar-se “refém” do Templo, deixou de lado a politicagem do Sinédrio e fez caso das seitas judaicas. Para Jesus, aquilo tudo tinha cheiro de morte, era a religião das aparências, da performance, do embuste, o estelionato do ser.

Por isso a escola de Jesus era na rua, nas esquinas, nos becos das cidades, nas casas, nos ajuntamentos a beira mar, ao pé da montanha ou nas colinas. Seus alunos não eram filósofos letrados, nem rabinos eruditos, muito pelo contrário, entre seus discípulos não havia pessoas com “pedigree”, apenas gente que queria aprender a ser gente.

Se não, observe! Veja se os encontros mais significativos de Jesus não foram com a rafaméia: a prostituta que ia ser apedrejada, os 10 leprosos, Zaqueu o publicano, a mulher do fluxo de sangue, o cego de Jericó, o aleijado do tanque de Betesda, a mulher Cananéia, a viúva de Naim, o endemoninhado gadareno, e outros tantos anônimos, excluídos, oprimidos, perseguidos.          

Lembro da parábola das bodas... Os convidados eram pessoas “distintas”, “nobres”, gente de “importância”, de “destaque”. Mas todos tinham seus afazeres e fizeram pouco caso do convite. Aí o Rei mandou chamar a gentalha, os estorvos, os miseráveis e os bêbados. Se fosse hoje estariam na festa viciados em crak, transexuais, lésbicas, gays, agiotas, traficantes, aidéticos, deprimidos, flanelinhas, e outros “diferentes”. Fico pensando se eu teria a dignidade necessária para me sentar à mesa com essa gente. Talvez não...

Fato mesmo é que Jesus ora estava aqui, ora ali, outra ora sabe-se lá onde. Até seus discípulos, por vezes, o perdiam de vista. Ele era ser errante, não tinha onde reclinar a cabeça, não criava “raiz”, nem amarras, sua casa era o mundo! Quando você pensava que Ele estava vindo, já tinha ido. Para Jesus a fila sempre estava andando, a vida sempre estava fluindo. Mas, desgraçadamente, aquela geração não soube reconhecer aquela “visitação”.

Olho as pessoas nos nossos dias... Elas estão sempre insatisfeitas, reclamando, querem mais e depois mais, buscam a fixidez, o concreto, a segurança, a estabilidade. Enquanto perdem tempo com suas questiúnculas, "a fila anda", o sonho passa, a vida segue, o tempo voa. É gente insegura, gente ansiosa, gente ingrata, gente irresolvida, gente intemperante, gente que deixou de ser gente, gente que se dessignificou como gente, gente que desaprendeu a ser gente, tornou-se substrato de gente, gente partida, dividida, gente que já não é mais gente.   

Para quem chegou neste estágio, só tenho uma coisa a dizer: “a fila já andou”. Enquanto você se emaranhava com tantas questões fúteis, com tantos projetos inúteis, com tanta megalomania, “a fila estava andando...”. Havia nas esquinas da vida gente precisando de carinho, de afago, de uma mão estendida, de uma palavra de conforto, de uma ação de misericórdia, de uma atitude de solidariedade, de uma decisão corajosa, de uma posição assumida, de uma consciência renovada, de uma alma quebrantada, de um coração expandido. E você, onde estava? Onde eu estava?! Ah, nós estávamos nos templos, nas reuniões, nos encontros religiosos, nas vigílias, nos seminários, estávamos “fazendo a obra”! Mas que obra?! A obra de quem?!

Hoje à tarde eu quase adormeci naquela fila... Agora estou com medo de estar adormecido quanto à existência que me cerca, aos dramas que me rodeiam, as calamidades que acontecem a minha porta, na minha cara, na esquina da minha rua, na frente do meu trabalho, na ponte, na praça, pois nestes lugares é onde estão os bêbados, os mendigos, os gays, os travestis, os maconheiros, essa gente que eu tenho desprezo de olhar, aversão de ouvir, nojo de tocar, medo de sentir.

Entretanto, o grande paradigma em tudo isto é que são justamente estes que Jesus quer que eu convide para a “festa”, pois são eles os mais receptivos a Graça e ao Reino. Agora, se eu não me “tocar” quanto a isto, corro o sério risco de, em algum momento, ouvir dEle: “desculpe filho; "a fila já andou"; tive de usar outro em seu lugar, pois você estava muito ocupado com a sua obra”. Pense nisso...

Carlos Moreira é culpado por tudo o que escreve. Com medo de perder o "andar da fila" quer viver uma nova realidade de prática e fé. Ele escreve aqui no Genizah e na Nova Cristandade.
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  1. Maravilhosa reflexão que tenho feito tb, com a diferença de que eu continuo só refletindo sobre, mas ainda não fui à luta tanto quanto deveria pelo meu Senhor... #envergonhada

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  2. Martas de templos é o que mais temos hoje em dia! Pessoas ocupadas demais com as coisas administrativas, e o mundão perecendo e carecendo do amor e do evangelho.
    Triste realidade, e eu sou um dos tais...
    E espero que por pouco tempo!

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  3. Obrigada pela reflexão!
    Acho que precisamos, as vezes, de alguém que nos diz que estamos na mão errada e que precisamos rever o evangelho que cremos!
    Bom é quando ouvimos, a terra está boa e aparecem os frutos!!
    Um abraço
    Joselane

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  4. Parabens..ótima cronica..realmente vou pensar nisso....

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  5. Pr Jose Aparecido5 de abril de 2011 12:29

    Confesso que esta manhã fui no templo, a consagração das irmãs. Com joelhos dobrados comecei a conversar com Deus,pedindo sua ajuda para dar seguimento a sua obra, pois sou pastor de um ministério.No que conversava com Ele também sentia o peso da responsabilidade, e me achava debilitado diante da grandeza de sua obra. Naquele momento analisava meu grandes projetos e sonhos. Chego em casa abro a internet e deparo com este precioso texto reflexivo, e aí penso: a realidade é bem diferente e simples.¨"Amar à Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo" Parabéns pela mensagem, e pela instrumentalidade nas mãos do Espírito. Abraços...

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  6. Este ótimo texto está no Genizah mesmo?

    Mas não é esse site que critica igreja que tem ex-drogados, ou drogados atuais, sei lá...?

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  7. Sensacional!
    Exatamente o que penso, o que quero e o que procuro fazer.
    A "obra" deve ser feita nas ruas e não nos templos.

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  8. O texto falou tudo principalmente na parte onde diz q estamos enclausurados em nossos seminários, congressos e acrescento ainda mais decidindo q cor a parede do banheiro deve ser, marcando reuniões extraordinarias p decidir quebrar ali ou quebrar aqui, as pessoas estão ai fora, não muito longe nossos vizinhos!

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  9. cara voce escreve muito bem,um estilo livre,muito bem colocado,amo a igreja de Jesus,mas, amo a lingua portuguesa tambem,desculpe se não estou sendo espiritual,mas,a leitura fica bem melhor assim.abraços clara.

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  10. É como sempre maravilhoso, tudo o que tenho refletido e por isto deixado muitas coisas pra traz.SE todos entendêssemos que o que Deus quer é que façamos o caminho de Jesus, não com ele ao lado mas dentro de nosso coração limpo e com vontade de aprender estaríamos realmente fazendo a Obra pois viveríamos o " amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" Vou copiar e enviar a alguns por e mail. Deus o abençoe.

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  11. Brilhante reflexão. Enquanto não nos apercebemos de nossa própria prisão mental e espiritual aos tantos grilhões de hipocrisia e farisaísmo não seremos suficientemente dignos para falar do amor que veio do Pai para o perdido, o ferido, o sujo, o caído, e não quem já se considerava limpo o bastante para não precisar da salvação.
    Jesus é sempre inspirador quando se trata de quebrar os velhos paradigmas da religiosidade que nada tem a ver com a graça oferecida pela cruz. Hora de nos envergonharmos por fazer do evangelho genuíno o principal empecilho para alcançarmos os necessitados.

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