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O buraco é mais embaixo...


Hermes C. Fernandes

Segundo o diagnóstico dos reformadores do século XVI, o problema central do ser humano era a justiça própria. Foi a partir dessa conclusão, que eles estabeleceram a “Justificação pela fé” como a bandeira principal do cristianismo protestante.

Se fosse possível ao homem salvar-se mediante boas obras, isso retroalimentaria seu orgulho, cativando-o para sempre em um ciclo do pecado. Somente a graça seria capaz de romper com este ciclo, pois a mesma seria um golpe desferido por Deus no orgulho humano, salvando-o de si mesmo.

Embora concorde com as doutrinas defendidas pelo protestantismo histórico, acredito que houve um erro de diagnóstico. O problema humano não repousa sobre a justiça própria. Na verdade, a justiça própria equivale a um remédio errado que foi ministrado em cima de um sintoma.

Sabemos, pelas Escrituras, que o problema humano se chama “pecado”. Ainda que o conceito seja exclusivo das religiões originárias em Abraão (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), todas as outras religiões concordam que alguma coisa esteja errada com o ser humano. E todas elas, exceto o cristianismo bíblico, acreditam que o remédio para isso é a justiça própria. Para superar sua alienação espiritual, o homem teria que praticar boas obras, que expressassem seu senso de justiça e retidão.

De acordo com as Escrituras, nossas boas obras são como trapos de imundícia (Is.64:4). Era assim que se chamava o pano usado pelas mulheres para conter o fluxo menstrual. Em outras palavras, nossas boas obras são uma tentativa inútil de conter nossa hemorragia espiritual. E por melhores que sejam, estão sempre manchadas pelo nosso pecado. Por isso, a salvação não poderia ser pelas obras, pois elas estariam manchadas pelo nosso orgulho e vaidade.

Quando os reformadores se aperceberam disso, resolveram combater a justiça própria, mostrando aos homens que a única maneira de serem salvos é confiar na justiça divina, demonstrada na Cruz, onde Cristo recebeu nossos pecados e suas conseqüências, e nos imputou Sua justiça e santidade. Aos olhos de Deus, tornamo-nos justos, a despeito de nossas obras, quando reconhecemos nossa bancarrota, e nos fiamos na justiça de Seu Filho Jesus. É pela fé, e tão somente por ela, que Sua justiça é computada em nossa conta.

Até aí, tudo bem. Não há o que rebater. Basta ler Romanos, Gálatas, e toda a Bíblia, para dar-se conta de que a justificação pela fé é uma doutrina imprescindível e inegociável.

A Justificação pela Fé estanca a hemorragia provocada pelo pecado, mas não nos cura de nossa anemia.

É importante combater a justiça própria, pois ela nada mais é do que um placebo, um “me-engana-que-eu-gosto”. É importante estancar a hemorragia, em vez de tentar contê-la com boas obras. Mas acima de tudo, é importante restaurar a saúde espiritual do ser humano. E pra isso, tem-se que combater o pecado. E o que seria o “pecado”?

Ora, o termo “pecado” significa “errar o alvo”. Mas acerca de quê alvo estamos falando? Qual o alvo original estabelecido por Deus à criatura humana?

Essa resposta pode ser encontrada nos dois principais mandamentos de Deus. Eles se constituem no alvo de nossa existência.

“...Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt.22:37-40).

Eis o alvo! Fomos feitos para o amor. E o alvo deste amor é Deus, e, por conseguinte, nossos semelhantes. Porém, ao cair, o homem desvirtuou o alvo, e introduziu um novo alvo: seu próprio eu.

Quem disse que Deus ordenou que o homem amasse a si mesmo? O amor próprio é a essência do pecado. É o próprio pecado. Deus jamais nos ordenaria que pecássemos. Ao dizer que deveríamos amar a nosso próximo como a nós mesmos, ele não está endossando o amor próprio, mas condenando-o. Com efeito, Ele disse: O amor que vocês nutrem por si mesmos, devem dedicar aos outros em vez de a si. O “amor próprio” aqui entra apenas como um referencial, e não como algo louvável e que deva ser estimulado.

As religiões aparam os ramos, e eles continuam a frutificar. O golpe desferido pelos reformadores atingiu o tronco da árvore, e não a sua raiz. Urge desferirmos um golpe na raiz da árvore, o amor próprio.

Todos os pecados têm no amor próprio seu ponto de partida.

Por exemplo: a mentira. Geralmente, a mentira visa a auto-promoção ou a auto-preservação. O indivíduo mente para promover-se, exagerando em seus dotes, enfatizando suas proezas. Ou mente para proteger-se. Portanto, a mentira é filha do amor próprio.

E o adultério? Quem se entrega a uma relação adúltera busca por auto-satisfação, sem importar com a dor que causará ao seu cônjuge e filhos.

Auto-promoção, auto-preservação e auto-satisfação são os principais alvos estabelecidos pelo amor próprio.

Há ainda a filha caçula do amor próprio, a auto-estima, um nome mais sofisticado para o velho orgulho. E há ainda o sobrinho do amor próprio, a auto-ajuda, tão em voga em nossos dias. Em vez de buscar ajuda do auto, o homem pós-moderno prefere acreditar em seu próprio potencial para resolver todos os seus problemas.

O antídoto para a justiça própria é a graça. Através dela a justiça humana é desbancada, e em seu lugar é entronizada a justiça de Deus. E qual seria o antídoto para a o amor próprio?
O antídoto para o amor próprio é a cruz.

Os reformadores protestantes enfatizaram a morte de Jesus em nosso lugar, mas se esqueceram de dar igual ênfase à nossa co-crucificação. Dizer que Jesus morreu por nós é a mais pura verdade, mas não expressa toda a verdade. Ele morreu por nós, mas nós também fomos crucificados com Ele.

O apóstolo Paulo conjuga com maestria essas duas verdades:

“Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (2 Coríntios 5:14-15).

O amor revelado na Cruz deve constranger-nos a ponto de não mais vivermos para nós. A Cruz é um golpe fatal no amor próprio.

Paulo compreendeu isso perfeitamente: “Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl.2:20).

Onde foi parar a auto-estima de Jesus? Como Ele pôde entregar-Se de tal maneira por gente que sequer merecia?

Jesus estabeleceu um novo referencial de amor. Antes da Cruz, a referência mais eloqüente que o homem tinha era o amor próprio. Mas agora, Jesus o desbancou, entregando-Se por nós sem reservas.

E é este o tipo de amor que devemos dispensar aos nossos semelhantes.

Pela Cruz, somos salvos não apenas da condenação do inferno, ou da ira divina, mas somos salvos de nós mesmos.

Pelas pisaduras de Cristo, fomos curados de nossa hemorragia e de nossa anemia espiritual.
Agora somos instados a amar a Deus sobre todas as coisas e aos nossos semelhantes da maneira como Ele nos amou, e não como a nós mesmos.

Tudo isso sugere que o que a igreja cristã necessita não é de mais uma reforma, nos moldes do século XVI, mas de uma revolução de amor, onde o amor próprio seja deposto, e em seu lugar seja entronizado o Novo Mandamento de Jesus.


Hermes Fernandes é chapa do Genizah








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Postar um comentário

  1. Nossa ótimo texto, de verdade mesmo muito bom!

    Só através desse amor de Jesus por nós é que podemos nos sentir constragindos para amar assim também.

    Parabens Hermes =]

    Abraços

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  2. anderson almeida santana23 de setembro de 2010 23:50

    muito bom. somos muito parecidos com o jovem rico mesmo, nos achamos quase perfeitos, com a vidinha de frequência aos templos, mas quando Deus revela nosso eu, colocamos o rabinho entre as pernas e saímos de fininho para não deixar Deus nos matar...

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  3. Não estou com tempo para deixar meus comentários nos ultimos dias, dou uma passadinha só para ler e saio correndo.

    O problema é que o Hermes me deixa desconcertado, acabo perdendo os compromissos, mais, um texto desses não tem jeito.

    Sou da turma que tem certeza que só o amor pode mudar o mundo. Virei leitor assíduo do Hermes logo em meu início na blogosfera, de cara encontrei um texto com o título: "Hora de apagar as velas", fiquei extasiado com o texto, um dos mais significativos que já li de autoria do Hermes, e olha que já li muita coisa bonita deste iluminado autor, inclusive acabei de ler seu livro "Amor Radical".

    No entanto este texto de hoje não fica para trás, é realmente maravilhoso.

    NEle, que nos constrange com seu amor.
    Amarildo.

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  4. Paz do Senhor!
    Parabéns, ótimo texto, vou repetir a leitura, é bastante edificante esse post. Só retificando; onde diz Isaias 64:4, é Isaias 64:6.
    Em Cristo,
    Alexandre Braga

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  5. Lindo texto...quando comecei a ler achei que era muito grande e que não ia terminar...mas sinceramente, não consegui parar de ler e tive que comentar!
    Que Deus o abençoe!

    PAZ

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  6. Interessantíssimo. Justamente por nos salvar de nós mesmos, a Cruz nos salva do inferno e da ira divina...
    Como alguém já disse, o maior inimigo do homem é o próprio homem. Isso falando termos de individualidade.
    A Cruz nos salva de nosso egoísmo, de nossa leviandade, de nossas amarguras... Que fazem um mal horrível.
    Glória a Deus por isso.

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  7. Também sou contra o orgulho, mas se Jesus quisesse dizer para amar ao próximo e não a si, ele não deveria ter dito: "amarás o seu próximo a invez de si mesmo????
    Não amar a si leva a depressão, ao suicídio.
    Quando fazemos bem ao próximo, quando negamos coisas boas para o bem de outro, quando negamos esse mundo para chegarmos aos céus, não estamos amando a nós mesmos, pois sabemos que Deus é Bom, que nós teremos um galardão?

    Não acho que me amar, seja ruim. O amor vê as falhas. Me amo como filho de Deus, como salvo, como alguém que tem uma vocação da parte de Deus. Me amo e sei que sou totalmente imperfeito, mas que meu Pai me ama e que tenho imensuravel valor para Ele. Me amo e sei que devo agradar a meu pai para meu próprio bem e para o bem de meus próximos.

    Me amo e se um dia tiver que defender o evangelho com a morte, sei que se morrer ainda terei quem há de me ressuscitar naquele dia e que estarei nas bodas do Cordeiro. Me amo e sei que se sentir orgulho pelo que sou, estarei me igualando ao Diabo e seus aliados. Enfim, se me amo vou evitar o pecado que me rodeia e farei o máximo para agradar a meu Pai.

    Enfim, por que me amo vou amar ao meu próximo e tudo que tenho de bom devo compartilhar, inclusive o evangelho. Por me amar, vou meditar na bíblia, orar, jejuar, louvar a Deus, por tudo que sou, por tudo que tenho, por meu futuro em Suas mãos.

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  8. E você queria mesmo que, em pleno século XVI, os reformadores tivessem essa interpretação altamente existencialista sobre a justificação?

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